British Library: a Biblioteca Nacional do Reino Unido e seus tesouros

Parte do Complexo que abriga a British Library, com a Estação de Saint Pancras ao fundo.

Comecei a incluir visitas a bibliotecas nos meus roteiros de viagem quando visitei a OBA, a linda e moderna biblioteca de Amsterdam. Em Londres, a maior delas fica muito próxima às estações St. Pancras (de onde partem e chegam vários trens, incluindo o Eurostar) e King’s Cross (a estação do metrô onde fica a “passagem secreta” de Harry Potter). Por diversos motivos, sobre os quais já vou falar, a British Library merece ser incluída em um roteiro pela cidade, além de ser um ótimo local para quem chegou cedo à St. Pancras, e quer utilizar o tempo disponível de uma forma “inteligente”. Ela fica a cerca de 8 minutos caminhando a partir de ambas as estações, e nelas há placas indicando a melhor saída para chegar à biblioteca.

Placa indicativa na estação St. Pancras

Também é possível chegar ao local pelas estações do metrô de Euston e Euston Square e por meio de várias linhas de ônibus, dentre elas as de número 10, 59, 63, 73  e 91.

A Biblioteca Nacional do Reino Unido

Há duas unidades da Biblioteca Nacional do Reino Unido, situadas Londres e Yorkshire. A biblioteca localizada na capital foi o maior prédio público construído no Reino Unido no século XX. Foram 37 anos desde a concepção do projeto até a entrega, em 1997. Ela faz parte de um amplo conjunto arquitetônico formado por dois edifícios e uma esplanada. Um dos prédios abriga o chamado Complexo do Conhecimento, que é composto por teatro, espaços para eventos, bar e várias salas de reunião. A esplanada é bastante ampla e, principalmente no verão, torna-se palco de uma série de atividades. Já a biblioteca fica em uma edificação de quatro andares, em cujo espaço encontramos cafés, restaurante, museu, loja, galerias para exposições e onze salas de leitura. O local oferece guarda-volumes, chapelaria e WiFi gratuito, é acessível a deficientes físicos e possui  banheiros e bebedouros em todos os andares.

Vista da esplanada e dos prédios que formam o complexo.  Imagem retirada do site www.bl.uk
Carregando uma mala grande?

Caso você precise ir à biblioteca levando algum tipo de bagagem, é importante saber que ela deve ter, no máximo, o tamanho de uma mala de mão, cujas dimensões, neste caso, são de 56 x 25 x 45 cm (A x L x C).  Se a sua mala/mochila ultrapassar estas medidas, sua entrada não será permitida. Mas, nem tudo está perdido. Para estes e outros casos, uma boa notícia: recentemente, descobri os sites bagbnb e nannybag, onde é possível encontrar lugares que prometem tomar conta de nossas malas. Eles são, na sua maioria, hotéis e lojas, e estão espalhados pelas principais cidades de vários países. Fiz uma pesquisa rápida e descobri pelo menos três lugares próximos à biblioteca que oferecem o serviço. Uma delas é a empresa Kings Cross Luggage Storage.

Primeiras Impressões

Voltando ao nossa passeio à biblioteca, logo na entrada há seguranças realizando revistas em bolsas e mochilas. Você pode levar consigo todos os seus pertences, mas se desejar guardá-los, há armários com cadeados no subsolo. O hall de entrada é bastante amplo e bem iluminado. À esquerda situa-se o espaço para exposições e uma loja que vende vários tipos publicações e souvenirs e à direita há um café. No centro, estão a recepção e um balcão de informações, para onde eu sugiro que você se dirija quando chegar. Lá está disponível o mapa da biblioteca, que contém informações sobre o que você encontrará em cada um dos andares. Também há um catálogo, publicado quatro vezes ao ano, com a descrição de todos os eventos que acontecerão no local durante esse período.

Ao folhear esse catálogo, além de ficar maravilhada com as possibilidades de aprendizagem proporcionadas pela instituição, percebi que o local é administrado como um grande centro de compartilhamento e disseminação do conhecimento. Estão na programação debates, palestras, workshops, exposições, cursos e eventos para os mais diversos públicos, dentre eles: professores, crianças e famílias. Além disso, periodicamente, há uma grande exposição temporária, com cobrança de ingresso, que acontece em uma galeria especialmente preparada para receber esse tipo de acontecimento.

Visitei Londres nos meses de abril e junho de 2018 e fui três vezes à biblioteca. Uma das visitas, aconteceu, especialmente, para ver a exposição que estava em cartaz: James Cook – The Voyages, um grande presente para quem escreve sobre o assunto (já falarei um pouquinho mais sobre ela).  Só para você ter uma ideia do quão interessantes e variados são as temáticas dessas exposições, fiz uma pesquisa para encontrar os assuntos que deram origem a elas nos últimos anos, são eles: A Primeira Guerra Mundial, Alice no País das Maravilhas, a Campanha das Sufragistas, as Histórias LGBT,  Harry Potter, A Literatura do século XX, as Histórias em Quadrinhos, dentre outros.  Essa diversidade demonstra a atenção dada pelos organizadores aos mais variados tipos de interesse e público.

A Biblioteca do Rei
Imagem retirada do site Timeout London: www.timeout.com/london

Uma coisa que chama muita atenção assim que subimos as escadas, é uma imensa estante de livros feita de bronze e vidro, que ocupa o vão central do prédio. Pensei que essa torre, localizada no coração da biblioteca, fosse apenas um grande objeto de decoração, mas ao fazer uma breve pesquisa, descobri que se trata da coleção particular do Rei George III, doada pelo seu filho, George IV, ao Estado Britânico, após a morte do pai.  Ela pode ser vista de todos os andares e é composta por 85.000 exemplares, dentre eles, a primeira edição de um livro com as peças de Shakespeare.

Começando a Visita

No mezanino do térreo, estão localizados outros dois espaços de exposição. Um deles abriga a maior mostra filatélica permanente do mundo, que contém mais de 80.000 itens, a maioria selos, mas também há cartas, notas e outros objetos que ajudam a  contar a história dos serviços postais ao redor do mundo. O outro local, é denominado “The Sir John Ritblat Gallery” e  guarda os chamados tesouros da biblioteca. Visitar essa pequena, porém riquíssima, galeria é como dar uma volta ao mundo apreciando alguns dos dos acontecimentos mais marcantes da história.

Na sessão dedicada à música, encontramos várias partituras escritas a mão, incluindo obras de  Mozart, Beethoven e Handel.  Há também, uma vitrine dedicada aos Beatles onde estão expostas fotografias, ingressos de shows e letras de músicas, dentre elas a da canção “A Hard Day’s Night”, escrita por John Lennon no verso de um cartão infantil.

Letra de “A Hard day’s night” dos Beatles. Imagem retirada do site www.bl.uk

No que tange à  literatura, encontram-se textos escritos há muitos séculos. Um deles, redigido por Guillaume de Saint Per no século XIII, conta uma história ocorrida na Abadia do Monte Saint Michel, na França. Há também, verdadeiras relíquias como um caderno de Jane Austen, manuscritos de Charles Dickens e Lewis Carroll , desenhos e esquemas de Leonardo da Vinci, alguns trabalhos de Shakespeare, a primeira versão do romance Frankstein, de 1818, a  Bíblia de Gutemberg, o diário das sufragistas, e outros importantes textos, livros e  documentos das mais diversas áreas do conhecimento.

Por falar em documentos, em uma sala especial está  um exemplar da Magna Carta, escrita em 1215. Embora, entre os historiadores, exista muita divergência a respeito, principalmente, da aplicabilidade do seu conteúdo, há um ponto de anuência: ela foi um documento que inspirou as futuras Constituições. Para explicar a matéria de forma bastante rasa e resumida, a Carta, impunha limites à  monarquia e garantia certos direitos  às pessoas livres (que, naquele tempo, formavam uma minoria, uma vez que grande parte da população inglesa era formada por servos).

O que mais vou encontrar na biblioteca?

Subindo as escadas, encontramos onze salas de leitura divididas por temas. O acesso a elas é restrito àqueles que possuem um reader pass.  No site da biblioteca há instruções sobre como obtê-lo. As temáticas são as mais diversas: ciências (biologia,zoologia, geografia, etc.),ciências sociais, música, ciências humanas, livros raros, gestão, manuscritos, mapas e estudos africanos e asiáticos. Há ainda uma linda sala onde estão disponíveis periódicos do mundo inteiro. Nela, há um grande telão formado por diversas outras telas, que transmitem programas de notícias ao vivo.

Espalhadas pela biblioteca estão sofás, mesas e cadeiras, locais para estudo individual e computadores de onde se pode acessar todo o grande acervo online da instituição.

E se eu não estiver em Londres?

Se você não estiver em Londres, acesse o site da biblioteca e prepara-se para navegar por um mar de publicações, atividades e ideias.  O site proporciona acesso ao catálogo da instituição, ao acervo digitalizado, a blogs temáticos, a algumas imagens e sons dos tesouros expostos na galeria, além de vídeos, artigos e fotografias de algumas exposições que ocorrem ou já ocorreram no local. Há uma sessão chamada “Discover and Learn” onde estão disponibilizados filmes, artigos, animações e sugestões de atividades utilizando o acervo da biblioteca.

Exposições Temporárias: James Cook – The Voyages

Não sei dizer, o quão feliz fiquei, quando na minha primeira passagem pela biblioteca, observei, na esplanada, faixas e cartazes que divulgavam a exposição sobre as viagens de Cook. Assim que entrei, fui até o balcão de informações, perguntei sobre horários e valores e decidi que, na minha próxima ida ao local, visitaria a exposição.

O bilhete custava £14, mas informei que era estudante e recebi um desconto de 50%.  Com o ticket em mãos e uma brochura que continha alguns dados, imagens e informações sobre a exibição, me dirigi até a galeria Paccar, localizada no térreo, onde acontecem os eventos desse tipo.

Entrada da exposição

Logo no hall de entrada, havia um grande globo terrestre que mostrava os locais por onde passou James Cook nas três grandes viagens que realizou pelo mundo, entre 1768 e 1779. Ele aportou suas embarcações e cartografou lugares da América do Sul, Taiti, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Antártica, Alasca e Havai (onde foi morto numa batalha com os nativos). Na sua primeira viagem, em 1768, Cook esteve no Rio de Janeiro, no entanto, foi proibido de aportar pelas autoridades portuguesas.

Na exposição, organizada em três grandes salas de cores diferentes (uma dedicada a cada expedição), a história é contada através de escritos delicadamente impressos nas paredes. Nelas também estão expostos muitos mapas, desenhos e pinturas dos lugares por onde passaram os navios de Cook, feitas por membros da tripulação encarregados desses registros. Foram retratados paisagens, animais, pessoas e seus costumes, vegetações, etc.

No centro das salas, estavam em exibição, protegidos por vidros, catálogos organizados pelos botânicos e muitos diários de bordo, incluindo o grande e famoso diário do Capitão.

Ao longo do percurso da exposição, há vários vídeos onde estudiosos e moradores dos locais visitados pelas expedições falam sobre a importância, para as diversas áreas do conhecimento, dos registros e cartografias realizadas durante as viagens de James Cook. Enfim, a visita à exposição é um mergulho no munda das viagens, onde se percebe a potencialidade de aprendizagem explícita e implícita em cada deslocamento.

Descobertas interessantes

Para finalizar, compartilho duas descobertas interessantes:

  1. Os 10 milhões de tijolos vermelhos utilizados para construir o exterior dos prédios que formam o complexo do conhecimento, provém do condado de Leicestershire, mesmo local de onde  vieram os tijolos que foram utilizados para construir a vizinha estação Saint Pancras. Aliás, a inspiração para o uso desse material, foi a própria estação, inaugurada em 1868.
  2. Na esplanada, há um enorme estátua do famoso físico e matemático britânico Isaac Newton. O pedestal que a sustenta exibe um “convite” feito pela talking statues: hear Isaac here (ouça Isaac aqui). Esse é um interessante projeto implantado em algumas cidades do mundo, no qual através da digitação de um código ou  da leitura de um QR Code, feita com o celular, você irá receber uma ligação da personalidade homenageada pela estátua. Em Londres, é possível “conversar” com George Orwell, Sherlock Holmes, Rainha Victoria, Peter Pan, Shakespeare e até com o soldado desconhecido.
Serviço – British Library

Endereço: 96 Euston Road, London, NW1 2DB (entrada principal)

Website: www.bl.uk

Horários: a biblioteca abre todos os dias nos horários indicados abaixo.  No entanto, os horários das galerias e de algumas salas são diferenciados. Sugiro que você acesse o site para informações complementares.

Segunda à quinta-feira das 9h30min  às 20h; Sexta-feira: das 9h30min às 18h ; Sábado: das 9h30min às 17h  e Domingo: das 11h às 17h

Como chegar: Metro – estações Kings Cross, Euston, Euston Square; Trem: estações Euston e Saint Pancras; Ônibus: 10, 30, 59, 63, 73 e 91.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *