Memorial do Muro de Berlim: encontros que fazem pensar…

O que um mural grafitado, uma fotografia e uma escultura têm em comum? Essa é uma postagem um pouco diferente. Não é um daqueles textos em que conto cada detalhe de um lugar visitado. Desta vez, falo sobre o meu encontro com três obras artísticas que ocorreram nas visitas que fiz ao Memorial do Muro de Berlim em 2014 e 2018.  Vê-las ao vivo, admirá-las e pesquisar para aprender e compartilhar algo sobre cada uma delas, fez com que a experiência da visita a esse belo lugar, continuasse ressoando, ensinando e emocionando.

A história por trás dos encontros com a arte

Um mês antes de viajar à capital alemã, enquanto executava meu exercício diário de monitoramento da página e das redes sociais do Agenda Berlim (um dos blogs escolhidos para fazer parte da minha tese), vi uma imagem que saltou ao olhos. Era a fotografia de um mural  grafitado na parede lateral de um prédio. O grafite mostrava uma faca cortando um grande pedaço de carne. Em frente a ele, compondo a paisagem, barras de ferro que demarcam o local onde passava o antigo Muro de Berlim. Na descrição da fotografia estava a localização: Bernauer Straße.  Com o olhar focado naquela imagem, comecei a pensar na sensibilidade dos artistas e na potência das obras de arte. Para mim, aquela obra refletia exatamente o que senti na primeira vez que visitei o Memorial do Muro de Berlim: um corte profundo, um rasgar na alma.

Pedaços do Muro na Bernauer Strasse

A primeira visita ao memorial, realizada em 2014, impactou sobremaneira na minha forma de ver o mundo. Sim, eu já havia lido livros, visto filmes e estudado sobre as grandes guerras, mas nada se comparou a sensação de estar ali, testemunhando uma parte da história. Os restos de muro, a estrutura corroída pela ferrugem, as ruínas de casas e prédios, as imagens nas paredes, as fotografias dos que tentaram escapar, os áudios onde são narradas histórias de separação e sofrimento, os textos nos vários totens, a capela reconstruída, os vídeos, a escultura da reconciliação, enfim tudo se conformou em um grande convite à reflexão.

Os dois muros e a faixa da morte vistos desde a torre de observação do Centro de Documentação

O muro não foi simplesmente um muro…. ele lacerou vidas, casou lesões profundas, daqueles que deixam uma enorme cicatriz. Essas marcas estão presentes em cada canto do memorial e parecem clamar, aos que por lá passam, para que não as deixem cicatrizar. Precisam permaneçam vivas para lembrar-nos o que a ignorância e a insensatez humana podem provocar. Lembro da volta silenciosa para o hotel e de não ter a menor vontade de comer nada naquela noite…

Barras de Ferro demarcando o local onde passava o muro e a Capela da Reconciliação ao fundo

Quatro anos se passaram, e assim que tive contato com fotografia daquele mural grafitado, através da tela de um celular, regressei àquele dia. Foi como encontrar algo que simbolizasse os meus sentimentos. Foi então que decidi, que na minha próxima ida a Berlim, iria até lá para conhecê-lo.

Os encontros…

Comecei a visita como da outra vez, partindo da estação Nordbanhof (S-Bahn)  e caminhando em direção à primeira parada: uma maquete que apresenta uma vista superior de todo o terreno que compõem o memorial e que revela a configuração do local quando os muros ainda estavam de pé.  Naquela parte da cidade, a zona de separação era composta por dois muros paralelos, com uma faixa de areia entre eles que continha várias “armadilhas”, dentre elas barreiras feitas de arame farpado e uma vala profunda. Essa espaço entre os dois muros era conhecido como faixa da morte, local que era vigiado noite e dia por soldados, torres de controle e cães.

Faixa da morte vista através de uma fenda de um dos muros

Fui devagar, relendo algumas histórias que já conhecia e descobrindo outras inéditas. A formatação do memorial “pede” que efetuemos diversas paradas, seja para ler um texto, ver uma imagem, espiar por uma brecha do muro, ouvir um áudio, assistir a um vídeo ou admirar uma obra de arte, como é o caso da escultura feita em bronze chamada “Reconciliação“.

A estátua: Reconciliação
Reconciliação, Josefina Vasconcellos

Você sabia que esse lindo e emocionante trabalho tem um pouco de Brasil?  Ele é da escultora  Josefina Vaconcellos, filha do diplomata brasileiro Hippolyto de Vasconcellos e da inglesa Freda Coleman. Nascida na Inglaterra, Josefina tem várias esculturas famosas espalhadas pelo mundo.  A obra original, que inspirou a peça que hoje está exposta no memorial,  é uma pequena escultura nomeada “Reencontro”. Ela foi criada logo após a Segunda Guerra Mundial e exposta pela primeira vez em 1955. A artista conta realizou o trabalho após ler uma história sobre encontro de um casal no pós-guerra.

Concebi a ideia original da escultura aos fins da Segunda Guerra Mundial. A Europa estava colapsada e as pessoas estavam chocadas. Em um diário, li a história de uma mulher que havia cruzado a Europa a pé para encontrar o seu marido. Essa história me comoveu tanto que fiz a escultura. Depois pensei que não se tratava apenas de um reencontro de pessoas, mas também de um reencontro das nações que haviam se enfrentado.

Em 1975, a Universidade de Bradford, na Inglaterra, decidiu criar um Departamento de Estudos da Paz.  Para apoiar a iniciativa, Josefina ofereceu uma réplica de seu trabalho em escala maior. A obra, chamada “Reconciliação”, foi  instalada em frente à Biblioteca da Universidade e passou a ser símbolo da (re)união dos povos. Em 1995, ano que marcou os 50 anos do final da guerra, réplicas foram instaladas nas ruínas da Saint Michael’s Cathedral, a famosa Catedral de Coventry, na Inglaterra – fortemente bombardeada e destruída durante a segunda guerra e, no Parque da Paz, em Hiroshima. Os jardins do Castelo de Stormont, em Belfast, Irlanda do Norte, também abrigam uma escultura.

Após parar para admirar essa bela obra, cujo plano de fundo é composto por um pequeno campo de trigo e pela Capela da Reconciliação, segui caminhado até um local onde estão disponíveis alguns áudios e vídeos. Nos áudios, são narradas diversas histórias de separação. A maioria delas fala sobre pessoas que foram surpreendidas com o início da construção do muro naquela triste manhã do dia 13 de agosto de 1961. Muitas jamais voltaram a ver ou abraçar seus amigos e familiares.  Essa é, na minha opinião, uma das partes mais chocantes do memorial. O que você vê e ouve naquele local, dificilmente sairá da sua memória.

A fotografia: “Wall Jumper”

Durante todo o caminho, a história também é narrada por meio de várias imagens impactantes expostas nas paredes das casas e prédios que delimitam o espaço do memorial. Dentre as várias fotografias, destaco uma: a imagem do soldado Hans Conrad Schumann pulando a cerca de arame farpado que separava o lado oriental  do lado ocidental. De autoria do fotógrafo Peter Leibing, a imagem é encontrada em vários souvenirs e também em esculturas expostas pela cidades, uma delas na própria Bernauer Strasse.

Wall Jumper, Peter Leibing

Quando você conhece a história da fotografia, ela fica ainda mais representativa. Como a Nicole do Agenda Berlim já narrou tão bem as circunstâncias em que se deu esse salto para liberdade, sugiro que você visite o blog  para conferir.

O grafite: “If walls could talk”

A caminhada pelo memorial é repleta de surpresas e a sua capacidade de atenção é testada a todo momento. Nas pesquisas que fiz para escrever essa postagem descobri que há muita coisa que não ainda não vi. Olhar para baixo, para o alto e para os lados é essencial. Uma simples distração pode fazer com que você deixe de ver algo importante.

Como eu tinha ido até o Memorial com o objetivo de contemplar o mural grafitado, foquei toda a minha atenção nas paredes dos prédios. Não é difícil encontrá-lo. Ele fica em um edifício de esquina, quase em frente ao Centro de Documentação.

Se eu já tinha me emocionado com a fotografia do grafite vista pela tela de um celular, imagina como fiquei quando parei em frente a ele. A obra é linda e carregada de sensibilidade. O efeito da carne sendo cortada pela faca com a inscrição 1961 -1989,  os bairros de Berlim representados nos mapa formado pelas nervuras da carne, as barras de ferro reconstituindo o local onde passava o muro, as cores, o tamanho, o local, enfim tudo contribui para que a gente passe alguns minutos admirando cada pedacinho desse lindo projeto.

Uma matéria do site I heart berlim, conta que o mural é resultado de convite feito pela Talenthouse Kreativplattform à 396 designers de cerca de 60 países. “Se os muros pudessem falar” foi o título dado à chamada para submissões de propostas para composição de um mural na Bernauer Strasse. O vencedor foi Marcus Haas e o projeto foi executado com ajuda do grupo de arte Xi-Design e dos artistas  Size Two e Mario Mankey.

Ainda de acordo com a postagem do blog, publicada em agosto de 2016, a instalação era temporária… deveria durar apenas 3 meses. No entanto, se está lá até hoje, deve ter emocionado tanta gente quanto eu.

Para terminar

O memorial fica em um terreno a céu aberto e uma visita completa pode durar de 3 a 5 horas, dependendo do seu nível de interesse.  Não há cobrança de ingresso e nem horário de abertura e fechamento. No entanto, como há muitas coisas para ler e para ver, sugiro que você vá durante o dia, oportunidade em que também poderá visitar o Centro de Documentação e o Centro de Visitantes (atenção, eles não abrem às segundas feiras). Você pode consultar todos os horários no site oficial do Muro de Berlim. Por falar no site, ele contém diversas informações e imagens e todo o conteúdo é de muita qualidade (há versões em alemão, inglês e francês).

Nas pesquisas para escrever esse post descobri que há um site que “promove” vários tours virtuais pelo Memorial. O maior deles é composto por 20 estações e a história é contada por meio de áudios e imagens. Eu “parei” em algumas estações para experimentar e aprendi ainda mais coisas sobre o lugar. Quer visitar o memorial sem sair de casa? É só clicar aqui. Boa viagem!

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