Queria ter ficado mais: cartas cheias de histórias de viagem e de vida.

Há quanto tempo você não recebe uma carta? Qual foi a última vez que se envolveu em uma narrativa a ponto de se reconhecer nela?  Quantas vezes você sorriu sozinho ou enxugou as lágrimas lendo histórias contadas por outras pessoas? Lembra se algum dia conseguiu “viajar” através de uma leitura? Já torceu pelo final feliz de uma história de amor contada em apenas dez páginas? Teve vontade de ir a algum lugar após ler o relato de um viajante?

Há cerca de um mês, recebi um pacote que continha 12 lindas cartas. Cartas que contam histórias de viagem…. e de vida! “Queria ter ficado mais” é o nono livro da Lote 42, uma criança no mundo editorial que está prestes a completar 6 anos. Os fundadores, João Varella e Thiago Blumenthal, buscaram autores da nova geração, cujos textos circulavam na internet, para dar início a um projeto que une criatividade, irreverência e conteúdo de qualidade, apostando em diferentes e interessantes tipos de design gráfico.

Amor à primeira vista…

O meu primeiro olhar para a publicação, foi justamente o de admiração pelo lindo projeto gráfico, pela beleza das ilustrações contidas nos envelopes, pela sensibilidade na escolha dos materiais, pela ideia, enfim, pelo conjunto da obra.

À medida que as leituras avançavam, fiquei fascinada pelas maneiras tão diferentes e tão afetivas de contar histórias de viagem. Nas linhas e entrelinhas  estão explícitas e escondidas as ligações emocionais que as escritoras estabeleceram com o lugar ou com pessoas que conheceram durante seus deslocamentos pelo mundo.

O que é a experiência de morar fora senão o todo dia, a rotina que se cria, o gosto por aquele pão, aquele leite, o cheiro daquela rua e a vassoura encostada na porta daquele prédio? O cartão postal que ficou na memória não tem a Estátua da Liberdade em primeiro plano nem NY vista do Empire State. Esse espaço foi preenchido com a imagem das caminhadas no boulevard da Lenoz Avenue, no Harlem, com um copinho de sorvete na mão. Gostava de sentar nos bancos, no canteiro central da rua, sentindo o sol na moleira. Ia embora quando o calor diminuía. […] acabei apaixonada por uma Nova York pouco fotogênica. – Olívia Fraga

Da janela, ao entrar no quarto, vi uma moça no sobrado da frente entregando um balde com frutas, que descia por uma corda, até um moço que aguardava no térreo, na porta do local. Cena de filme. Das coisas simples que abrem o nosso sorriso logo na chegada. – Clara Vanali

Quem escreve, de onde escreve e sobre o que escreve?

O livro é escrito exclusivamente por mulheres. Grande parte delas têm formação em jornalismo ou envolvimento com o mundo das letras. Elas são jovens, mas carregam bagagens repletas de sonhos, aventuras, romances e surpresas.  As narrativas baseiam-se em fatos ocorridos em viagens de intercâmbio, de turismo e de trabalho.  São viagens solo, em família, com amigos, curtas, longas, pra perto e pra longe.

É impossível não reconhecer a Barcelona descrita com tanto carinho pela Bárbara Heckler, ou não ter vontade de tomar uma cerveja nos bares da Plaza Xúquer junto com a Bruna Tiussu, em Valência. Fica difícil não derramar lágrimas ao ler a resposta, dada por uma menina de dez anos, a  uma pergunta feita pela Cecília Araújo no campo de refugiados de Ein Beit al-Ma:  – “Você é feliz?” – “Todas as crianças palestinas são tristes (…) seria mais feliz em qualquer outro lugar”.

Barcelona – Imagem de Aleksandar Pasaric – Pexels.com

A história contada pela Cecília Arbolave, a organizadora do livro, se passa no Malba, o Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, é divertida e cheia de mistérios.  Já a aventura de Clara Averbuck, que narra o dia que antecedeu o lançamento de um de seus livros em Londres, me fez experimentar um misto de sentimentos e me carregou para dentro da história. A viagem da família da Clara Vanali para Roma, contada lindamente em sua carta, foi um dos capítulos de maior emoção na leitura do livro. Me reconheci em cada pedacinho do texto.

Fontana di Trevi – Roma. Imagem retirada do site www.pexels.com

A fuga do roteiro realizada pela Florencia Escudero à Yangshuo, na China, me fez sair correndo para o “Google”, pois despertou o desejo de conhecer aqueles lugares, paisagens e a maravilha da natureza vivenciada por ela. As história repleta dos mais belos encontros, desencontros e coincidências compartilhadas pela Isis Gabriel, não poderiam ter outro cenário, senão Paris. Lígia Braslauskas, além de me faz rir, me fez refletir sobre indiferença e sobre as histórias que estão por traz dos rostos desconhecidos que topamos por aí durante uma viagem.

Yangshuo, China. Imagem de Jonathan Ogilvre – www.freeimages.com

A idas e vindas de Lívia Aguiar à Istambul me fizeram pensar que, às vezes, devemos nos deixar conduzir pela leveza e pelo espírito jovem que todos temos. Luciana Breda nos conta como uma noite quase perdida, em uma cidade como Tóquio, pode reservar grandes surpresas, e Olívia Fraga, nos ensina a educar o olhar e a encontrar prazer nas coisas simples, numa Nova York que pode ser uma cidade muito mais interessante e diferente do que aquela que vemos nos cartões postais.

Ponte do Broklyn, Nova York – www.pexels.com
Como foi a leitura

Fiz a leitura das cartas em ordem alfabética: Bárbara, Bruna, Cecília, Clara… (é  nesta sequencia que elas vêm no pacote). Às vezes tinha vontade de espiar qual seria o próximo destino, mas me contia. Lia apenas uma carta por dia, de manhã bem cedinho. Várias passagens me instigaram a acessar o “Google” para conhecer um pouco mais sobre as autoras das minhas cartas preferidas, ou para buscar imagens de lugares citados por elas. Em muitos momentos desejei abrir a próxima, ou ler todas de uma vez, mas não tive coragem. Economizei as cartas e assim como acontece quando termina uma série de TV, daquelas que você fica aficionada, senti um vazio quando elas acabaram.

Queria ter lido mais…

Para terminar…

Caso você tenha ficado com muita vontade de adquirir o livro, ele custa R$ 49,90 no site da Banca Tatuí.

Essa é uma loja virtual, de um espaço de mesmo nome, localizado no bairro Santa Cecília, em São Paulo. A banca dedica-se à venda e à promoção de  publicações independentes. Comprando no local ou pelo site, você dá uma força para que um projetos tão bons quanto esse continuem existindo.

Para quem desejar conhecer um pouquinho mais sobre as autoras e o livro, há dois vídeos bem legais no canal da Lote 42 no YouTube.

Referência

ARBOLAVE, Cecília (Org.). Queria ter ficado mais. São Paulo: Lote 42, 2015.

 

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