Uma visita a Casa de Fernando Pessoa em Lisboa

Foi no número 16, da Rua Coelho da Rocha, localizada no bairro Campo do Ourique em Lisboa, que Fernando Pessoa viveu entre 1920 e 1935, ou seja, os últimos 15 dos seus 47 anos de vida. Eu havia planejado esta visita na primeira viagem que fiz a Lisboa, mas como não consegui incluí-la no roteiro, anotei no caderninho de desejos e, dessa vez, deu tudo certo, tanto é que fui duas vezes ao espaço dedicado ao grande poeta.

Como gosto muito de estudar tudo o que tem relação com mundo das viagens, incluindo  literatura, já li as mais variadas definições, conceitos e significações atribuídas às viagens. Na minha opinião, Fernando Pessoa foi o escritor que conseguiu exprimir de maneira mais sensível e bela os significados do viajar.

Viajar? Para viajar basta existir.

[…]

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.

Antes de realizar a visita à Casa, pensava ter sido o poeta um viajante contumaz… ledo engano!  Pessoa fez apenas quatro grandes viagens em toda a sua vida, todas elas de navio, de Portugal para a África do Sul e vice-versa. Isso porque, quando criança, o poeta foi morar com a sua família na cidade de Durban, antiga colônia inglesa, na África. No relato abaixo, conto um pouquinho mais dessa história…

Fachada da Casa/Museu Fernando Pessoa – Lisboa
Como chegar à Casa Fernando Pessoa

Para chegar ao local, onde hoje funciona uma casa/museu, peguei a linha amarela do metro, direção Rato, e desci justamente nesta estação, que é a última parada da linha. Também é possível chegar ao local utilizando o elétrico (25 ou 28)  ou as linhas de ônibus (autocarro) 709, 713, 720, 738 e 774.

Ao sair da estação do metro você não encontrará qualquer placa indicativa que possa auxiliar na localização da casa. O jeito é utilizar o GPS ou sair perguntando. Foi o que fiz. Após receber a orientação de um policial, iniciei uma caminhada que durou cerca de 10 minutos, com algumas subidinhas e, cheguei ao local um pouco antes das 15 horas, horário de início da visita  guiada em português, que acontece todas as segundas, quintas e sábados. Antes de ir até lá, dê uma olhada no site da Casa, que tem muitas informações úteis, é constantemente atualizado e ainda traz uma programação de eventos bem interessantes que inclui música, literatura, workshops, visitas temáticas, etc.

Imagens de Fernando Pessoa expostas num grande painel, localizado no segundo piso da casa.
Visitando a Casa/Museu

Esta não é uma daquelas visitas onde você irá conhecer cada cômodo do local onde viveu seu ilustre morador. Logo na entrada, percebe-se que não é esse o objetivo. A fachada da Casa Fernando Pessoa permanece a mesma dos tempos em que ele a habitou, mas a parte interna foi bastante modificada para transformar-se em um local de preservação da história e memória do escritor. No interior do imóvel, apenas a escada é original, assim como alguns móveis e objetos.

O valor da entrada é 3 euros e há gratuidade para os que adquirirem o Lisboa Card. Na casa/museu funcionam uma loja, uma sala de estudos, um auditório, um espaço para exposições temporárias, um restaurante e duas bibliotecas.

A Visita guiada

A visita começou pontualmente às 15 horas. Éramos apenas três pessoas e fomos recebidas pela guia Carla Antunes em uma sala ampla, com pé direito alto, onde estão expostos algumas obras de artistas que retrataram o poeta. A principal delas, Retrato de Fernando Pessoa, foi pintada por José Almada Negreiros, grande amigo do escritor.  Sobre esta obra, nossa guia nos contou uma história bem interessante…

Existem duas obras denominadas Retrato de Fernando Pessoa, ambas originais e pintadas por Almada Negreiros. A obra que encontra-se na casa, foi produzida em 1954 e a outra, encomendada pela Fundação Calouste Gulbekian, é de 1964. Como a Fundação foi uma grande apoiadora e patrocinadora do trabalho de Negreiros, desejava muito de ter uma das suas principais obras no acervo. Devido a impossibilidade de adquirir a obra pintada em 1954, solicitou ao artista para pintá-la novamente, o que ele fez, desta vez, em espelho… O resultado são duas obras bastante parecidas, onde Fernando Pessoa é retratado em uma delas,  virado para o  lado direito e, na outra, para lado esquerdo.

Retrato de Fernando Pessoa, Almada Negreiros. ( Imagem à esquerda. 1964 – Fundação Calouste Gulbekian e imagem à direita, 1954 – Casa Fernando Pessoa)  

A visita segue com a guia conduzindo-nos a biblioteca, que é aberta ao público e conta com serviço de wi-fi gratuito. No acervo estão várias obras de Fernando Pessoa. Além dos conhecidos livros de poesia e prosa, há também correspondências, textos críticos sobre política, religião e sociedade, teatro, argumentos para filmes, textos soltos e até novelas policiais. Também podem ser encontradas críticas e ensaios sobre a obra do escritor, biografias e uma sessão dedicada a obras poética portuguesas e internacionais.

Na casa, há ainda uma outra biblioteca, onde estão vários computadores de onde se pode acessar todo o acervo pessoal de Fernando Pessoa, que está disponível online. O acesso a esse material é  muito interessante, pois permite conhecer as preferências e influências do escritor. Uma informação dada pela Carla, torna  esse conteúdo ainda mais atraente, pois  segundo ela, Pessoa tinha o hábito de fazer anotações nas margens das páginas dos livros que lia. Na marginália de alguns exemplares consultados, encontrei desde marcações de partes que ele considerou engraçadas, até pequenos versos.

Saindo da biblioteca, pelas escadas, tivemos acesso ao primeiro andar da casa, onde encontra-se o quarto do escritor. No corredor, em frente a porta do dormitório, está uma estante original, que acompanhou Fernando Pessoa durante quase toda sua vida e, onde eram guardados alguns dos mais de 1200 livros que compunham a sua  biblioteca pessoal.  Há também um armário, onde estão alguns objetos que pertenceram a ele e a sua família: uma gramática da língua inglesa, livros escolares, um porta moedas de sua mãe, um alfinete de gravatas do seu pai e uma colher marcada com suas iniciais. Na parede, há um certificado da escola que ele frequentou, em Durban (África do Sul), e que mostra suas excelentes notas em todas as disciplinas.

Quarto de Fernando Pessoa. Ao lado esquerdo se pode ver a cômoda original, onde segundo o próprio escritor,  ele escrevia muitos de seus poemas (sempre que possível em pé). No dia 8 de março de 1914 ,conta ter tido uma espécie de êxtase e escrito mais de trinta poemas em cima desse móvel, criando os heterônimos Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

De acordo com a guia, Fernando Pessoa não possuía muitos bens e não era uma pessoa que dava muita importância ao conforto. Portanto, só tinha aquilo que era estritamente necessário. Fomos convidadas por ela para sentarmos na cama do pequeno quarto e ali, confortavelmente instaladas, ouvimos várias histórias de episódios da vida do escritor. Elaborei uma pequena lista do que achei mais interessante:

  1. Por ter nascido no dia 13 de junho, Fernando Antônio Nogueira Pessoa, recebeu este nome em homenagem ao Santo do dia: Fernando Bulhões, hoje conhecido como Santo Antônio,  nome que adotou quando ingressou na Ordem Franciscana.
  2. Quando Fernando Pessoa tinha apenas 5 anos de idade, seu pai e seu irmão (de apenas 11 meses) são acometidos por tuberculose e falecem rapidamente.
  3. Maria Madalena (sua mãe) cai em uma tristeza profunda e o pequeno Fernando, cria seu primeiro personagem, um amigo imaginário francês, o qual chamou Chevalier de Pas.
  4.  A mãe casa-se novamente, com o Comandante da Marinha José Miguel da Rosa, que é nomeado cônsul português em Durban, na Africa do Sul, para onde a família se muda em 1896.
  5. Naquela época, não era normal os filhos do primeiro casamento transitarem pelo segundo, pois eram consideradas um problema ou até um fardo. Fernando deveria ficar com um parente próximo.  A mãe, então, explica a ele essa situação. O menino, de apenas 7 anos, responde através de seu primeiro verso, onde expressa o amor que sente pela mãe:  Ó terras de Portugal/Ó terras onde eu nasci/Por muito que goste delas/Ainda gosto mais de ti. Tocada pelo verso, Maria Madalena escreve-o em caderno, assina o nome de Fernando e o guarda para sempre. Após esse evento, solicita ao marido para levar Fernando consigo, e é atendida.

    Primeiro verso de Fernando Pessoa. Imagem retirada do livro Estranho Estrangeiro: uma biografia de Fernando Pessoa, de Robert Brechon.
  6. No dia 20 janeiro de 1896, Maria Madalena e Fernando, acompanhadas pelo tio Manuel Gualdino da Cunha, partem para Madeira de onde, alguns dias depois, embarcam para Durban, numa viagem que durou 40 dias.
  7. O primeiro biógrafo do autor, João Gaspar Simões, afirmou em seu livro  que a língua portuguesa deve muito  à portaria que nomeou o padrasto de Fernando Pessoa para o Consulado de Durban. Ele entende que se o menino não tivesse tido o contato com a cultura, o idioma e com os autores da língua inglesa (como Shakespeare, Milton, Byron, Keats e Poe) – o que lhe foi propiciado pelo deslocamento, dificilmente escreveria e comporia sua obra da maneira brilhante com que fez.
  8. Em 1901, Fernando Pessoa retornou a Portugal com a família para passar uma longa temporada de férias (ele ficou no país por treze meses). A viagem até Lisboa foi a única realizada pela costa ocidental da África e durou 43 dias. O percurso passou por Moçambique, Tanzânia, Egito até chegar à Europa, pelo Porto de Nápoles, Itália, de onde seguiram rumo à Portugal.
  9. Durante as férias, ele visitou parentes da mãe na Ilha Terceira (arquipélago dos Açores) e parentes do pai em Tavira (cidade localizada no sul do país, distante cerca de 300 km de Lisboa).
  10. Depois de passar mais alguns anos em Durban, regressou a Lisboa, sozinho, em 1905 de onde nunca mais saiu.
  11. Começou a faculdade de Letras, mas quase não frequentou às aulas e desistiu antes de completar o primeiro ano.
  12. Na arca do escritor (baú), aberta em 1935 (ano de sua morte), foram encontrados 27.543 papeis que continham vários tipos de material inédito. Incluindo um guia turístico de Lisboa.
  13. Estão catalogados até agora 137 personagens fictícios criados por Pessoa. Todos eles têm uma assinatura identificada com características de suas personalidades.  O escritor, conhecido pela sua obsessão pela perfeição , fez estudos grafológicos para criar cada uma delas.

    Algumas das muitas assinaturas criadas por Fernando Pessoa para si próprio e para seus personagens e heterônimos.
  14. Durante sua vida, publicou apenas quatro obras: três em Inglês e uma única obra em português – Mensagem de 1934.
  15. Declarava exercer a profissão de corresponde comercial de casas de comércio (uma espécie de tradutor de documentos). Para ele “ o ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação”.

Após quase uma hora de conversa, onde contou esses e outros fatos e curiosidades sobre a vida de Pessoa, Carla nos deixou a vontade para percorrermos, com calma, o segundo piso da casa, que é dedicado à memória do escritor. Na entrada, há alguns computadores de onde se pode acessar uma cronologia detalhada da vida de Pessoa e, também, visualizar sua fotobiografia. Nos computadores dispostos logo a seguir,  você pode ouvir vários poemas do autor, recitados por diversos artistas famosos, dentre eles alguns brasileiros. Na centro da sala são projetadas várias assinaturas de Pessoa e de seus heterônimos e no compartimento ao lado estão expostos alguns objetos pessoais do escritor.

Fernando Pessoa: “O publicitário”

Em 1927, Fernando Pessoa trabalhava na Agência Hora, como copywriter, uma espécie de redator publicitário.  A agência recebeu da Coca-Cola a solicitação de criação de um slogan, que serviria para a divulgação da bebida em Portugal. O poeta então escreveu o sensacional: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.  No entanto, sua criação nunca saiu do papel, visto que o justiça portuguesa e o Estado Novo proibiram a entrada da bebida no país . A Coca-Cola só começou a ser comercializada em Portugal 50 anos depois desse episódio, em 1977.  Em frente ao Café Martinho da Arcada, localizado na Praça do Comércio, há um quadro contando este episódio. Dentro do café, a mesa onde Pessoa escrevia, nas suas muitas idas ao local, foi batizada com o seu nome. Nas paredes estão emolduradas fotos do escritor e artigos de jornal da época.

Saindo da Casa

Muito próximo a casa se localiza a Basílica da Estrela, uma igreja católica localizada em um antigo convento de freiras Carmelitas. No século XVIII, D. Maria (única monarca portuguesa) prometeu a construção de um templo, caso tivesse um filho.  Com a realização do desejo, as obras foram iniciadas em 1779. Para chegar até lá, você irá passar pelo Jardim Guerra Junqueiro, também conhecido com Jardim da Estrela, um parque bastante agradável.

Caso  goste de caminhar, é só seguir a linha do Elétrico 28, que passa em frente a Basílica, e ela levará você até o Bairro Alto… onde Pessoa continua a brilhar…. nas vitrines, nos sebos e nos cafés….

Referência à Fernando Pessoa em uma vitrine de uma loja no Bairro Alto
O viajar nas Obras do Poeta

Para quem gosta de viagem física e também  de viajar nos livros há duas obras imperdíveis de Fernando Pessoa.

Capas de Livros de Fernando Pessoa citados nesta postagem

Tenho medo de partir: um livro de viagens. O livro é uma compilação de textos de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares, todos eles pertencentes a Sociedade Secreta dos Viajantes Estacionários. É uma obra que fala sobre partidas, percursos e chegadas e que  faz bem à alma e ao coração.

Lisboa: o que o Turista deve ver. Os escritos deste livro foram encontrados na arca de Fernando Pessoa, datilografados e dentro de um envelope. Acredita-se que o escritor escreveu um Guia turístico de Lisboa pensando na chegada de seus irmãos, que passariam a viver na cidade quando a família regressasse da África do Sul. A escrita também pode ter sido motivada por um projeto do poeta para a dignificação de Portugal, que ele considerava “descaracterizado” face à civilização europeia e, no caso desta obra, dignificação da capital portuguesa.  Presume-se que o texto é de 1825, mas as imagens que ilustram os lugares descritos por Pessoa são atuais, tornando o passeio pela cidade muito interessante.

PESSOA, Fernando. Tenho medo de partir: um livro de viagens. Lisboa: Guerra e Paz, 2018.

PESSOA, Fernando. Lisboa: o que o turista deve ver. Lisboa: Livros Horizonte, 2015.

Uma última dica

Indico que você programe sua ida à casa em um dos horários em que ocorre a visita guiada, a menos que você conheça muito sobre a vida e obra do poeta. O interessante da visita é justamente ir caminhando com os guias e ouvindo as muitas histórias contadas por eles, num ambiente onde se respira Fernando Pessoa.

Viagem realizada entre os dias 20 e 23 de junho de 2018.

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