Viajando nos livros… Viagem ao Harz

Em 2014 fiz uma viagem pela Alemanha e visitei três montanhas localizadas em terras bávaras: o Tegelberg, em Schwangau, o Jennerbahn em Berchtesgaden e o Alpspitze, em Garmish-Partenkirchen. Estar no alto de uma montanha, pode levar o viajante a uma mistura de sensações: conquista, medo, liberdade…  Por isso, foi impossível não lembrar dos momentos incríveis que passei nas montanhas do sul da Alemanha, enquanto lia as descrições da viagem feita por Heinrich Heine a uma cadeia montanhosa localizada no norte alemão: o Harz.

Alpspitze, montanha localizada emGarmish-Partenkirchen a 2.628 metros de altitude
Lago Koenigssee visto do Monte Jenner (Jennerbahn)

Sou daquelas pessoas que acredita que não é necessário um deslocamento físico para entrarmos no modo viagem. Podemos viajar através de um livro, de uma história, de um filme ou de um programa de TV. Viagem ao Harz  me fez caminhar junto com o autor em uma jornada que se iniciou na pacata Göttingen, que “deve sua fama as salsichas e à universidade” (p.22) até  Brokenberg… uma montanha que “quando abre seus olhos de gigante, não há dúvidas de que consegue enxergar bem mais longe do que nós, anões, que subimos suas encostas com esses olhinhos tolos” (p. 78) .

A imagem que ilustra a capa é um quadro de Caspar David Friedrich intitulado Wanderer above the Sea of Fog, pintado por volta de 1817.

Ainda não sei dizer o quão longe esse livro me levou. Acho que vou precisar relê-lo algumas vezes para alcançar essa dimensão.

Uma tentativa de resenha

Heinrich Heine, um dos mais célebres poetas alemães de todos os tempos, narra no livro uma viagem que realizou após ter sido suspenso por um semestre da universidade onde estudava. Embora, durante a leitura, eu tenha me ocupado em ir anotando o nome das cidades pelas quais ele passou, o livro está longe de ser um guia prático ou um roteiro pormenorizado.

Em sua narrativa, Heine se ocupa em contar-nos os desvios que faz na rota planejada e também os que desejou  fazer. Relata de maneira brilhante seus encontros com a natureza, através de descrições tão perfeitas e tão cheias de poesia, que o leitor é capaz de sentir o cheiro das plantas, ouvir o uivo do vento, perceber o calor do sol ou ver o brilho dos rios…

Destaquei um trechinho do livro no qual ele fala da beleza das coisas que encontrou pelo caminho e do coração de quem as vê…

Naquela altura do caminho, as montanhas impunham-se ainda mais íngremes.  As florestas de pinheiros ondejavam no vale qual imenso mar verde e as nuvens brancas navegavam o céu azul. O aspecto selvagem da região era abrandado por força de sua unidade e simplicidade. Pois, como um bom poeta, a natureza não gosta de transições abruptas.  […] Mas como um grande poeta, a natureza sabe produzir os maiores efeitos com um mínimo de recursos: um sol, árvores, flores, água e amor. Se, no entanto, o espectador carecer desse último item em seu coração, tudo passa a adquirir um aspecto miserável: o sol tem, então, apenas tantos e quantos quilômetros de diâmetro, as árvores dão boa lenha, as flores são classificadas segundo seus pistilos e estames e a água é apenas molhada. (p.36-37)

Em seus relatos ele também menciona a gastronomia das cidades por onde passa e revela algo que sempre considerei interessante…. começar a viagem antes de sair de casa, saborear as histórias do lugar, conhecer um pouco sobre seus costumes e sua gente.  Acho que isso faz com que valorizemos ainda mais as experiências.

Parei para almoçar em Clausthal, numa hospedaria chamada Krone. Serviram-me uma sopa de salsinha, de tom verde-primavera, uma porção de repolho roxo, dum roxo-violáceo, um assado de vitela, tão grande quanto uma miniatura do vulcão Chimborazo, e arenques defumados de uma variedade chamada Buking, batizados a partir do nome do seu inventor Wilhelm Buking, morto em 1447. […] Como é maravilhoso saborear um prato assim, quando se conhecem os dados históricos a seu respeito e ainda se pode experimentá-lo pessoalmente. (p.39)

O poeta também narra as conversas que teve pela estrada com outros viajantes, as mulheres que cortejou, os amigos que encontrou e os desconhecidos que visitou. Há momentos de reflexão sobre o comportamento humano, especialmente o dos alemães, e críticas ao momento político e social pelo qual passava a sua terra natal.

O livro, escrito em 1824, é uma história curta. A primeira, e talvez a mais famosa, obra da coletânea “Quadros de Viagem” (Reisebilder), organizada pelo próprio Heine.

Viagem ao Harz  não tem elementos de ficção que fazem com que o leitor queira lê-lo apressadamente para saber o final. Pelo contrário, o livro pede uma leitura tranquila, pausas para refletir sobre os pensamentos do “poeta sonhador” e silêncio para se possa absorver toda a sensibilidade presente na prosa e nos poemas.

Conhecendo o Harz ( e a história do Senhor Benno Schmidt)

Assim que  terminei a leitura fui para o google a fim de  “conhecer”, através das imagens, o famoso Monte Broken, as pequenas cidades e localidades pelas quais passou Heine  (Göttingen, Weende, Bovenden, Rauschenwasser, Nörten, Osterode, Clausthal, Goslar) e o tão falado Rio Ilse.  As fotografias e vídeos mostram uma região realmente muito bonita, tal qual as descrições do autor.

Dentre os vídeos, uma deles chamou minha atenção. Trata-se de uma reportagem realizada pela rede de rádio e TV alemã Deutsche Welle , onde nos é apresentado o personagem da “nova fase” do  Brocken: o senhor Benno Schmidt, que já subiu a montanha mais de 7500 vezes.

O monte está situado na área onde  existia a fronteira entre a República Democrática Alemã e a República Federal da Alemanha. Por isso,  no período em que o país ficou divido, foi declarado zona militar restrita e foi fechado para os civis entre 1961 e 1989, sendo reaberto logo após a queda do Muro de Berlim.

Na resportagem, Benno conta que durante 28 anos observava o Brocken todos os dias e que se sentia muito frustrado por não poder acessá-lo. Desde sua reabertura, ele caminha os 18 quilômetros até o topo todos os dias…

Resenhas

Gostaria de esclarecer que esta é a minha primeira tentativa de esboçar publicamente os pensamentos sobre um livro. É também o meu primeiro contato com uma obra de Heinrich Heine.

Ao fazer buscas na internet para conhecer as opiniões de outros leitores, encontrei o artigo escrito por  Gabriel Alonso Guimarães e Suzana Kampff Lages, publicado pela revista Pandaemonium. Essa sim, uma resenha de respeito!  Caso deseje lê-la, basta acessar a base da Scielo.

Aos que continuam interessados no assunto, há uma outra resenha muito bem feita, desta vez em forma de vídeo, no canal Leia para Viver,de Rodrigo Villela. A medida que Rodrigo fala sobre o livro, vão aparecendo imagens dos lugares por onde Heine passou e fotografias do autor. Ele também faz menção a outros famosos que realizaram viagens ao local  e escreveram sobre elas, como Goethe, célebre escritor e poeta alemão e Hans Christian Andersen, autor de clássicos infantis como O Patinho Feio, O Soldadinho de Chumbo e A Roupa Nova do Rei.

Antes de terminar, acredito que valha uma opinião sobre a tradução do livro…. nota-se que ela foi realizada depois de muita pesquisa e que tradutor, Maurício Mendonça Cardozo, teve um grande cuidado com o uso e colocação de cada palavra, fazendo com que o resultado do seu trabalho seja primoroso.

Para terminar

Para terminar divido com vocês duas descobertas….

Há agências de turismo alemãs que oferecem as rotas descritas por Heine e Goethe na suas passagens pelo Monte Broken. A Ilsenburg Tourismus é uma delas.

A hospedaria Krone, onde Heine parou para um almoço em Clausthal ainda existe… hoje denomina-se Hotel Goldene krone.

Hotel Goldene Krone, antiga hospedaria Krone, em Clausthal – Imagem retirada do site do hotel Goldene Krone

E, então? Vamos viajar ao Harz?

Esta postagem baseou-se na leitura da seguinte obra:

HEINE, Heinrich. Viagem ao Harz: da obra Reisebilder 
(Quadros de Viagem). São Paulo, Editora 34, 2013.

 

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